VG precisa de até R$ 3,2 bilhões para universalizar água e esgoto

 Sexta-feira, 14 de agosto de 2026 

Estudo da Fipe projeta planejamento de 34 anos para reestruturar o saneamento; cidade perde quase 60% da água produzida, 71% da população não tem acesso ao esgotamento sanitário e rede de coleta precisará quase quadruplicar

Várzea Grande precisará investir entre R$ 2,03 bilhões e R$ 3,20 bilhões para reorganizar um sistema de saneamento marcado por décadas de deficiência e alcançar a universalização dos serviços de água e esgoto. O planejamento traçado para o município se estende pelos próximos 34 anos, até 2060, dando a dimensão do passivo acumulado na segunda maior cidade de Mato Grosso.

Os números fazem parte do estudo técnico elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e apresentado durante audiência pública promovida pela Prefeitura, na noite de quarta-feira (12), para discussão do Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB).

O diagnóstico revela que o problema vai muito além da falta de água que historicamente afeta bairros da cidade.

Várzea Grande perde quase 60% da água produzida e tratada antes que ela seja efetivamente aproveitada pelos consumidores. No esgotamento sanitário, a cobertura permanece abaixo de 29%, deixando cerca de sete em cada dez moradores sem acesso ao serviço.

Para cumprir a meta de chegar a 90% de cobertura de esgoto até 2033, o município precisará praticamente reconstruir sua infraestrutura. A rede coletora terá de passar dos atuais 403 quilômetros para 1.584 quilômetros.

Isso representa a implantação de outros 1.181 quilômetros de tubulações — uma expansão de aproximadamente 293% sobre a estrutura existente.

O desafio financeiro acompanha a dimensão das obras: no cenário estudado pela Fipe, serão necessários pelo menos R$ 2,03 bilhões. No cenário de maior investimento, a conta chega a R$ 3,20 bilhões.

DÉCADAS DE DEFASAGEM - Presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), Sérgio Ricardo classificou o diagnóstico apresentado pela Fipe como um retrato de “caos” e atribuiu a situação ao passivo acumulado ao longo de sucessivas administrações.

“O estudo aponta um cenário de caos. Várzea Grande ficou abandonada por séculos sem planejamento, e isso não é culpa da atual gestão. Precisamos tratar de investimentos na casa dos bilhões e buscar ações emergenciais”, afirmou.

Segundo ele, 71% da população de Várzea Grande não têm acesso ao saneamento básico.

“Para resolver essa situação, será necessário muito dinheiro, pois essa situação de Várzea Grande não será resolvida com milhões, aqui serão necessários bilhões. O estudo fala em investimentos de R$ 2 a R$ 3 bilhões, mas isso pode ser ainda maior, porque praticamente não há infraestrutura adequada na cidade”, acrescentou.

Os números ajudam a explicar por que intervenções pontuais, embora necessárias para amenizar a falta de água, não são suficientes para solucionar estruturalmente o problema.

O PMSB tenta estabelecer justamente uma sequência de investimentos, obras e metas que ultrapasse os mandatos municipais e dê continuidade ao planejamento até 2060.

ÁGUA PRODUZIDA SE PERDE NO CAMINHO - Um dos indicadores mais críticos apontados pelo diagnóstico é o índice de perdas.

De cada 100 litros de água produzidos e tratados pelo sistema de Várzea Grande, quase 60 litros são perdidos antes do aproveitamento final.

As perdas podem estar relacionadas a diferentes problemas da rede, como vazamentos, infraestrutura antiga, falhas de medição e ligações irregulares. O estudo apresentado estabelece a necessidade de enfrentar esse desperdício como uma das condições para reorganizar o abastecimento.

A redução das perdas é especialmente relevante porque aumentar apenas a produção de água não resolve o problema se parcela expressiva do volume continuar desaparecendo ao longo do sistema.

A atual administração informa ter consertado mais de 2,2 mil vazamentos, além de instalar hidrômetros e atuar na regularização de ligações.

ESGOTO EXIGE MAIS 1,1 MIL KM DE REDE - Se o abastecimento apresenta perdas elevadas, a situação do esgotamento sanitário exige uma expansão ainda maior da infraestrutura.

A cobertura é inferior a 29%. Para alcançar a meta de 90% até 2033, Várzea Grande terá de ampliar a rede dos atuais 403 quilômetros para 1.584 quilômetros.

Na prática, a cidade precisará construir quase três quilômetros de nova rede para cada quilômetro atualmente existente.

A expansão, por si só, também não encerra o desafio. O aumento da coleta precisa ser acompanhado pela capacidade de transporte e tratamento do esgoto produzido pela população.

É justamente a combinação entre água, esgotamento, redução de perdas, expansão das redes e recuperação da infraestrutura existente que empurra a necessidade de investimentos para a casa dos bilhões.

PLANO VAI VIRAR LEI - A prefeita Flávia Moretti (PL) afirmou que o enfrentamento das deficiências históricas no abastecimento e no esgotamento sanitário será prioridade da administração.

“Vocês vão conhecer tudo o que foi estudado em um ano e quatro meses. Nenhum gestor teve a coragem de fazer isso que pede a Lei do Saneamento Básico. Daqui em diante, fazendo a parte técnica, estamos enfrentando o desafio que outros não tiveram coragem de encarar”, declarou.

Segundo a prefeita, depois da audiência pública e da incorporação das demandas apresentadas, o Plano Municipal de Saneamento Básico será encaminhado à Câmara de Vereadores para ser transformado em lei.

Moretti defendeu que o plano seja tratado como instrumento permanente, independentemente das mudanças de governo, e cobrou participação da sociedade e dos órgãos de controle na fiscalização das metas.

“Após essa audiência e de levantarmos todas as demandas apresentadas aqui, vamos encaminhar para Câmara de Vereadores para que se torne lei”, disse.

A duração prevista do planejamento torna esse acompanhamento fundamental. O horizonte de 2060 significa que sua execução atravessará várias administrações municipais.

INVESTIMENTOS EM ANDAMENTO - Enquanto o planejamento de longo prazo é discutido, a Prefeitura afirma executar medidas emergenciais para melhorar o sistema atual.

Segundo Moretti, foram investidos R$ 7,99 milhões em equipamentos. A administração também concluiu a adutora entre a Estação Pari e o Morro do Urubu, obra de R$ 11,98 milhões, e está construindo cinco reservatórios, com investimento de R$ 16,39 milhões.

Somados, os três grupos de investimentos citados pela prefeita alcançam cerca de R$ 36,36 milhões.

“Já investimos R$ 7,99 milhões em equipamentos, concluímos a adutora entre a Estação Pari e o Morro do Urubu, com R$ 11,98 milhões, e estamos construindo cinco novos reservatórios, com investimento de R$ 16,39 milhões”, afirmou.

A prefeita citou ainda intervenções no sistema de esgoto, instalação de hidrômetros, regularização de ligações e os mais de 2,2 mil vazamentos reparados.

Há ainda o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) “Aliança pela Água”, que prevê R$ 60 milhões para ações emergenciais e recuperação do sistema. Conforme Moretti, os recursos são executados pelo Governo do Estado.

DESAFIO VAI ALÉM DE UM MANDATO - A diferença entre os investimentos emergenciais e a necessidade estrutural mostra a escala do desafio.

Mesmo considerando os R$ 60 milhões do TAC e os R$ 36,36 milhões em equipamentos e obras citados pela administração municipal, o montante é pequeno diante de uma necessidade que pode chegar a R$ 3,20 bilhões.

O PMSB passa, portanto, a ser mais do que uma lista de obras. Para que as metas sejam cumpridas, o município terá de definir de onde sairão os recursos, qual será a sequência dos investimentos, como serão reduzidas as perdas e de que maneira a expansão da rede acompanhará o crescimento urbano.

Há ainda dois relógios diferentes correndo simultaneamente.

O primeiro é imediato: garantir água nas torneiras e reduzir os problemas enfrentados hoje pela população.

O segundo é estrutural: ampliar a coleta de esgoto, recuperar redes, reduzir perdas e construir uma infraestrutura capaz de sustentar a universalização dos serviços.

O diagnóstico da Fipe coloca números nessa dívida histórica. Para superá-la, Várzea Grande terá de transformar um problema acumulado durante décadas em um programa de obras e investimentos que atravessará gerações.


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