Bloqueio de sinais de GPS em regiões do Oriente Médio é resultado provável de 'guerra eletrônica', aponta relatório
Quinta-feira, 04 de junho de 2026
Segundo a análise da TI Safe, atualmente há a atuação simultânea de dois eixos de interferência, um ligado a Israel, na região do Levante, e outro relacionado ao Irã, na região do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico
O intenso bloqueio dos sistemas de navegação por satélite observado em regiões do Oriente Médio é resultado de uma provável sobreposição de campanhas estatais de "guerra eletrônica" associada aos conflitos que se espalham pela região desde 2023, apontou um relatório da TI Safe, empresa brasileira especializada em cibersegurança de infraestruturas críticas, divulgado nesta terça-feira.
Segundo a análise, atualmente há a atuação simultânea de dois eixos de interferência, um possivelmente ligado a Israel, na região do Levante, e outro relacionado ao Irã, na região do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico. O fenômeno ganhou ainda mais força neste ano, destaca o documento, afetando rotas aéreas e marítimas estratégicas.
Desde os ataques do grupo islamista palestino Hamas contra Israel em outubro de 2023, o Oriente Médio mergulhou em uma sucessão de conflitos, incluindo a guerra em Gaza, confrontos entre Israel e Hezbollah no Líbano, ataques dos rebeldes Houthis no Mar Vermelho e, mais recentemente, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
Amplamente utilizados por drones, mísseis guiados, aeronaves, embarcações e sistemas de vigilância, os sistemas de navegação por satélite são um elemento central de disputa militar.
Um levantamento citado pelo jornal francês Le Monde mostrou que quase um milhão de eventos de interferência em navegação por satélite foram registrados desde o agravamento da crise no Golfo Pérsico neste ano. Apenas em 28 de fevereiro, primeiro dia do conflito, cerca de 1.100 embarcações teriam sido afetadas.
No setor marítimo, há registros de centenas de embarcações exibindo posições anômalas e até "teletransportadas" digitalmente para aeroportos, instalações nucleares ou áreas terrestres, afetando navegação e consciência situacional no Golfo e Estreito de Ormuz, explica ao GLOBO o CEO da TI Safe, Marcelo Branquinho, citando também a perda de capacidade de navegação, alertas falsos e desvios de rota, entre outros problemas, também no setor da aviação.
Jamming e spoofing
A prática, explica o documento, inclui duas técnicas principais: o jamming, que impede os receptores de captar sinais de satélite, e o spoofing, que transmite sinais falsos capazes de induzir sistemas de navegação a calcular posições incorretas. Ambas são amplamente utilizadas para dificultar operações miloitares.
Apesar das fortes evidências de interferência estatal nos dois eixos destacados pelo relatório, não é possível determinar com precisão absoluta a origem desses sinais de interferências.
A primeira é a ausência de medições independentes de espectro feitas por estações terrestres capazes de atribuir diretamente o emissor responsável, diz Branquinho.
A segunda é a falta de uma lista pública consolidada informando, incidente por incidente, quais frequências específicas foram afetadas em cada local.
A terceira é a inexistência de uma análise pública detalhada baseada em redes globais de monitoramento GNSS, como a IGS, que permitisse uma atribuição técnica mais precisa do episódio atual.
Ainda assim, a distribuição geográfica dos incidentes analisados e a coincidência com áreas de conflito apontam para operações deliberadas e coordenadas.
No eixo de conflito entre Israel-Líbano-Síria, o relatório aponta Israel como o principal candidato para explicar as interferências observadas no período.
Além da capacidade técnica e militar israelense em comparação com os outros atores regionais, a avaliação também leva em conta estudos do Radionavigation Laboratory, da Universidade do Texas, que comprovaram o que autoridades israelenses já declararam sobre realizar interferências em GPS de "forma preventiva".
Os pesquisadores também conseguiram geolocalizar transmissores associados a episódios de spoofing que desviavam receptores para a área do aeroporto de Beirute, no Líbano.
Paralelamente, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) já havia relatado impactos persistentes no espaço aéreo de Tel Aviv, e o governo libanês também apresentou uma denúncia formal às Nações Unidas no ano passado, alegando que interferências israelenses colocavam em risco a aviação civil.
Já no Golfo Pérsico, a análise aponta para uma ligação direta entre o aumento das interferências e a escalada militar envolvendo o Irã e Ormuz a partir deste ano.
Organismos como a Administração Marítima dos Estados Unidos (Marad), o Joint Maritime Information Center (JMIC) e o UK Maritime Trade Operations (UKMTO) relataram centenas de embarcações apresentando posições anômalas e interrupções em sistemas de navegação por satélite.
Segundo o relatório, o cenário mais provável nesse contexto é de que ativos iranianos e a Guarda Revolucionária do Irã sejam os principais responsáveis por essas ações, por conta da localização dos incidentes, concentrados em torno de Ormuz e de rotas marítimas estratégicas.
Além disso, o histórico de investimentos do Irã em capacidades de guerra eletrônica voltadas para defesa aérea, monitoramento e proteção de infraestrutura militar também são indicativos que reforçam essa conclusão.
O relatório não descarta, contudo, que forças americanas, aliados ocidentais ou países do Golfo realizem interferências localizadas para fins defensivos, embora seja menos provável.
O mesmo vale para ações orquestradas por grupos armados não estatais financiados por Teerã, como Hezbollah e os rebeldes Houthis.
Segundo os autores, esses grupos têm capacidade para provocar interferências pontuais, mas dificilmente conseguiriam reproduzir sozinhos a escala, a persistência e a sofisticação do padrão detectado.
Além disso, a hipótese de causas naturais atrapalhando os sinais também é considerada improvável pelos analistas, já que não foram registrados eventos espaciais e climáticos significativos capazes de justificar bloqueios concentrados justamente nos corredores mais afetados pelos conflitos militares da região.

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