Em desespero eleitoral, Lula quer banir as Bets que ele mesmo regulamentou e faturou 10 bilhões

Com essas taxas e os impostos referentes à atividade, o governo embolsou 9,95 bilhões de reais em 2025, com a jogatina contra a qual agora ele se volta


 Sábado, 25 de abril de 2026 

Era uma terça-feira usual de jogatina no prestigiado Hotel-Cassino Quitandinha, em Petrópolis, quando o telefone tocou e os dados rolaram sobre as mesas pela última vez. Na linha, o empresário Joaquim Rolla, lendário “rei da roleta” das noites fluminenses, ordenou que todas as partidas fossem interrompidas e o dinheiro imediatamente recolhido, pois o presidente Eurico Gaspar Dutra havia acabado de decretar, naquele 30 de abril de 1946, o fim dos cassinos em todo o território nacional.

 Comentava-se entre o povo que a lei fora ideia da primeira-dama Carmela Dutra, a “Dona Santinha”, católica fervorosa, que teria convencido o marido a declarar uma cruzada contra a perversão moral da atividade. 

Oitenta anos depois, o governo Lula ensaia uma guerra aberta contra as bets, os cassinos dos novos tempos, movido, ao que parece, pelo espírito de “Dona Santinha”: acenar ao eleitorado conservador, em especial ao religioso, e evitar estragos maiores em um segmento da sociedade com qual o petismo já tem muitas dificuldades.

O tom eleitoral da medida é evidente e foi colocado no papel pelo próprio PT. A bancada do partido apresentou à Câmara um projeto de lei para banir completamente as bets do país, jogando a culpa pelo endividamento severo da população, outro calcanhar de aquiles de Lula, diretamente sobre o setor, que, nos últimos três anos, investiu pesado para atender às novas normas de regulação baixadas, veja só, pela gestão Lula. 

A proposta estabelece que as casas de apostas fechem suas portas em trinta dias, sob pena de multas que começam em 50.000 reais e podem chegar a bilhões de reais. Mas não só. O projeto cria quatro crimes diferentes para exploração das apostas, com penas que podem chegar aos oitos anos de prisão, o bastante para, pela legislação brasileira, levar alguém para a cadeia.

O próprio presidente colocou-se à frente da nova cruzada. “Nós brigamos a vida inteira contra cassino, eu pelo menos, como cristão. Agora o cassino está dentro da sua casa”, disse em uma entrevista no dia 14, imbuído do espírito de “Dona Santinha”. 

O petista tocou no assunto em várias outras oportunidades, sempre deixando claro que, se dependesse dele, “fechava as bets”. Nos bastidores estimula que se criem cada vez mais restrições à atividade, como a proibição de beneficiários de programas sociais de apostarem e o veto à publicidade de bets em veículos de comunicação. 

Essa última já avançou no Senado, com a aprovação pela Comissão de Ciência e Tecnologia de projeto do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, que veda a publicidade das casas de apostas e o patrocínio de outras atividades, como o futebol (hoje, a grande maioria dos clubes da elite tem nisso uma de suas maiores fontes de renda).

Essa movimentação marca uma notável guinada: embora as bets tenham sido legalizadas no governo Michel Temer e operado ao arrepio da lei nos quatro anos de gestão Jair Bolsonaro, foi no terceiro mandato de Lula que elas foram regulamentadas, esse mercado passou a atuar a partir de janeiro de 2025. 

Parte do esforço passou pela criação de uma Secretaria de Prêmios e Apostas, dentro do Ministério da Fazenda, um órgão apenas com o objetivo de estruturar, praticamente do zero, essa regulamentação das bets no Brasil. “Estamos falando de um mercado que começou a funcionar, na perspectiva regulatória, há cerca de um ano e quatro meses”, frisa Daniele Cardoso, atual secretária de Prêmios e Apostas. 

A estrutura criada permitiu que o governo enchesse os bolsos. Apenas a outorga, que é a licença para uma casa de apostas funcionar, custa 30 milhões de reais, autorizando um CNPJ a operar até três marcas. 

Com essas taxas e os impostos referentes à atividade, o governo embolsou 9,95 bilhões de reais em 2025 com a jogatina contra a qual agora se volta. “O tributo é importante, mas não pode ser a partir da desgraça das pessoas. Eu não vejo problema nem contradição em admitir que o problema se criou com um volume tal, que precisamos enfrentá-lo”, diz Pedro Uczai (PT-SC), líder da sigla na Câmara. 

A CPI das Bets, última tentativa de o Congresso colocar alguma ordem no negócio, virou palco de influencers e terminou sem relatório em 2025. 

O otimismo do governo com a regulação, ao que parece, durou pouco. A alta vertiginosa do volume de apostas, que renderam 33 bilhões de reais às bets apenas em 2025 no país, coincidiu com o afundamento dos brasileiros em dívidas. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 80,4% das famílias eram devedoras em março de 2026. 

Entre os fatores que causam endividamento, a jogatina pesa duas vezes mais do que as altas taxas de juros e a oferta de crédito, segundo estudo recente de Claudio Felisoni, professor da FIA Business School. “A combinação entre facilidade de aposta e propaganda massiva dos jogos é extremamente danosa à saúde financeira das pessoas”, diz o pesquisador. 

Ao mesmo tempo, cresce a procura da população por tratamento psicológico contra vício em jogos de azar. Em março, o SUS inaugurou um canal de teleatendimento para esses casos, já que as consultas presenciais passaram de 6 000 em 2025. 

Na Câmara, o projeto de lei que põe fim às bets não deve entrar tão já no radar de prioridades do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB), que já tem outras preocupações na linha, como o fim da escala de trabalho 6×1. 

Embora não ouse votar contra o fim da jogatina virtual, a oposição de direita denuncia a estratégia eleitoreira. 

“Não venham em ano de eleição posar contra as bets, que não vai colar. Lula sancionou essa desgraça para as famílias. Vão devolver ao povo os bilhões que arrecadou?”, critica o evangélico e líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ). “Nós somos contra a jogatina sempre. Eles não são contra, é apenas momento”, acrescenta Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. 

Ele lembra que, se não fosse a pressão dos evangélicos, o governo teria aprovado até a volta dos cassinos físicos, que é discutida em um projeto no Congresso. 

A jogatina, de fato, já se tornou munição contra a campanha de Lula. No último dia 11, Flávio Bolsonaro (PL-­RJ), principal rival do petista na corrida presidencial, criticou o endividamento dos brasileiros, atribuindo o fato em grande parte às apostas. 

“Lula regulamentou a Lei das Bets, e olha só o desastre que estamos passando hoje”, disse o senador em um vídeo que, apenas em seu Instagram, tem mais de 2,5 milhões de visualizações. 

“É uma prática deletéria que o governo regulamentou pensando na arrecadação, atacando a economia das pessoas mais vulneráveis e gerando problemas morais e sociais”, diz o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha eleitoral de Flávio. 

Apontar as bets como a grande vilã do endividamento, contudo, é questionável. 

Em 2025, os brasileiros gastaram 37 bilhões de reais em apostas, menos do que em bebidas alcoólicas (40,5 bilhões de reais) e streaming (69,7 bilhões de reais), enquanto o pagamento de juros sobre empréstimos e cartão de crédito custou 697 bilhões de reais às famílias, segundo a LCA Consultoria. 

Para especialistas, o aumento das apostas está inserido em um contexto de alta do consumo digital, que também se reflete em gastos maiores com corridas por aplicativo, comida por delivery e compras on-line. “Não há nada no padrão de consumo que, sozinho, seja responsável pela inadimplência. O grande problema é o acesso fácil a crédito caro, especialmente o rotativo, e o baixo nível de educação financeira da população”, avalia Eric Brasil, diretor da LCA.

Do lado das bets, a proposta de acabar com a atividade caiu como uma bomba, já que o setor via a regulação aprovada como avanço contra o mercado ilegal de apostas. 

“Essa virada de mesa, do ponto de vista de segurança jurídica e credibilidade do ambiente empresarial, é temerária. 

Foi o governo do PT que regulamentou e vendeu as licenças, e o que mudou foi o contexto eleitoral”, diz André Gelfi, presidente do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR). 

Proibir o segmento, segundo ele, seria uma vitória exclusiva para a criminalidade, que já encontrou no ramo de jogos de azar um terreno fértil para expansão, como evidenciado pelas operações Narco Bet e Narco Fluxo, da Polícia Federal, que desmantelaram esquemas de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas em bets e levaram à prisão figuras famosas como os MCs Ryan SP e Poze do Rodo e o influenciador Raphael Sousa Oliveira, criador da página de conteúdo Choquei. “Não existe cenário sem jogo, existe jogo regulado e jogo clandestino”, afirma Gelfi.

O setor das apostas também teme impactos com a insegurança jurídica. “O presidente está buscando bater em temas sensíveis para alavancar sua popularidade. Escolheu nosso segmento como tópico a ser explorado", diz, sobreserva, o CEO de uma casa de aposta que atua no ramo esportivo. 

“Temos a absoluta certeza de que isso tem a ver com o mercado ilegal”, afirma Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). Ainda estão sem desfecho duas robustas ações declaratórias de inconstitucionalidade no Supremo pedindo a derrubada em definitivo da Lei das Bets, uma delas apresentada pela Procuradoria Geral da República. 

Na perspectiva histórica, vale lembrar, proibir é sempre pouco eficiente. Nem mesmo os oitenta anos de vigência do banimento de apostas no Brasil foi capaz de conter a adesão das pessoas aos jogos de azar, nas suas mais variadas modalidades. 

O vício em apostas não é um problema recente, tampouco limitado ao Brasil. 

Berço histórico da jogatina, a Inglaterra baixou sua primeira regulação em 1541, quando o rei Henrique VIII proibiu as tropas de apostarem devido aos prejuízos de “práticas nefastas” sobre o desempenho militar, quase cinco séculos depois, o Reino Unido ainda sofre com um bilionário mercado de cassinos ilegais hospedados em empresas offshore. 

Estados Unidos, Portugal, Espanha e Itália também se engalfinham com amplos esquemas de clandestinidade que provocam endividamentos severos, a despeito do moderno arcabouço regulatório. 

Em vez de investir na depuração do mercado, no fortalecimento da fiscalização e no incremento das ações de saúde pública, o governo petista decidiu jogar as bets na fogueira, ao que parece, não por preocupação genuína com a sociedade, mas por apelo eleitoral, em uma grande aposta demagógica. 


Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992


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