CARA DE PAU - PT agora diz que sempre considerou o direitista um amigo, um cara bacana
Discurso antissistema, fundo eleitoral e redes: 10 pontos explicam avanço do PL nas eleições.
Quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Até há pouco mais de uma década, ninguém se revelava ideologicamente como de direita. Era um comportamento tido como bizarro. O menino “de direita” era aquele que ficava lá na frente das carteiras da escola, sem coragem de iniciar algum contato social.
As meninas viravam a cara quando passava pelo corredor. Os rapazes riam em deboche. Pegava mal qualquer diálogo com ele. Direitista era um ser sem amigos, um equivocado na vida, um sem noção. “Como assim?”, comentavam à boca pequena, quando esse solitário passava em direção a um banheiro, “qual será o problema dele? Tem uma família problemática? Algum trauma que não pode contar a ninguém?”.
Há raízes históricas no Brasil para esse tipo de comportamento. A ditadura havia terminado em fracasso econômico e social, com inflação e recessão combinadas. Mesmo com censura aos jornais, à música popular, os governos militares nunca conseguiram controlar a cultura brasileira.
Ao contrário. Mesmo nos anos de chumbo, artistas identificados com a esquerda sempre foram uma espécie de heróis. Chico Buarque, Caetano Veloso, Ivan Lins, além da arte, eram militantes que ajudaram o país a voltar para democracia. Neste ambiente, o direitista era antes de tudo um equivocado. Uma triste figura. De dar pena. O esquerdista, ao contrário, um exemplo de coragem.
Nem mesmo próceres do Partido da Frente Liberal, como o ex-senador Jorge Bornhausen, se consideravam de direita. Liberais ficavam dentro do armário (olha que a ditadura brasileira, a partir dos anos 70, esteve longe de ser liberal, ao contrário).
Ser de direita era um estigma pesado demais para carregar. Tucanos, inclusive, sofriam muito quando eram tachados como “direitistas” no debate público. Recuavam em suas posições, iam para o divã e perdiam a eleição. O Partido dos Trabalhadores deitou e rolou nesse vácuo político no qual direitista não deveria sequer ter status de cidadão. A ousadia era tanta que até os centristas que não aderiam ao projeto petista, lhe tascavam a alcunha: “direitistas envergonhados”.
Deve-se a Jair Bolsonaro a mudança de ares. Um irrelevante ex-capitão que saiu algo corrido do Exército, orgulhava-se não só de se defender a ditadura. Também erguia a bandeira da direita. Com o crescimento eleitoral de Bolsonaro, a partir de 2018, na esteira de uma crise econômica e política gestada pelo PT, turbinada pela operação Lava Jato, milhões seguiram o seu caminho e a direita brasileira deixou de ser uma espécie de lixo varrido para debaixo do tapete. Era capaz até mesmo de vencer uma eleição majoritária nacional.
Essa direita desinibida, bolsonarista, inclusive, solapou a direita que não ousava dizer o nome, representada, por exemplo, pelo partido Democratas, hoje parte do União Brasil (que deixou de lado o nome PFL porque ser “liberal” não pegava muito bem, segundo o marqueteiro contratado).
Agora, direita, no mundo popular pelos rincões do Brasil, tem a ver com fazer as coisas direito. Existe neste momento, inclusive, um supermercado de opções à direita no Brasil. Desde reacionários saudosos do golpe militar à juventude lisérgica e roqueira do partido Missão, de Renan Santos. Direita tem a ver com ousadia e ser contra o sistema carcomido que domina a nação.
Nada como o risco das eleições para que apareçam os oportunismos de ocasião. Na atual conjuntura eleitoral, para ganhar no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva precisa dos votos de gente de direita para virar sobre Flávio Bolsonaro.
Numa combinação de cinismo, ingenuidade e cara de pau, o PT agora diz que sempre considerou o tal direitista um amigo, um cara bacana.
O discurso para virar voto é algo assim: “Meu querido amigo direitista. Olha, sempre gostamos de você, caro democrata. Porque Lula é de centro, vocês são da admirada direita e temos que derrotar o bolsonarismo, que é outra coisa, inominável. Venham com a gente expulsar o mal!”. O hipotético menino direitista, hoje um adulto cobiçado, está boquiaberto com a proposta de quem sempre o menosprezou. Se essa conversa muito estranha vai dar certo, saberemos quando as urnas forem abertas no próximo dia 25.

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