Não deixaremos que Lula reescreva a História


 Segunda feira, 21 de setembro de 2026 

Para Lula, eleger Dirceu seria ‘reparação histórica’. Na História criada pelos petistas, Dirceu é herói e Lula foi ‘absolvido’ dos crimes pelos quais foi condenado. O País não cairá nessa.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer reescrever a História. Andou dizendo por aí que eleger José Dirceu como deputado seria uma “reparação histórica”. 

Esse embuste não é casual: faz parte do esforço dos petistas para caracterizar como perseguição política, passível de “reparação”, a justa punição que alguns de seus principais líderes receberam por protagonizar os maiores escândalos de corrupção da história brasileira. 

Nisso inclui-se a versão petista segundo a qual Lula foi “absolvido” dos crimes pelos quais foi condenado no âmbito da Lava Jato. Contudo, no que depender deste jornal, bem como dos brasileiros que conservam alguma memória, nada disso vai prosperar.

Vamos à História real. Dirceu foi cassado pela Câmara e condenado pelo Supremo a mais de dez anos por comprar parlamentares, no infame escândalo do mensalão. Cumpriu só parte da pena e recebeu indulto da então presidente Dilma Rousseff. Lula agora quer vender o mensaleiro como perseguido. Por pouco não cobrou indenizações aos brasileiros. Na História lulista, delinquentes são heróis.

Logo que o escândalo explodiu, em 2005, Lula chegou a balbuciar que o PT precisava pedir desculpas. Ele mesmo incriminou os companheiros, dizendo-se “traído”. Em poucos meses, passou a garantir que “não teve mensalão”, e em 2009 as acusações já tinham se metamorfoseado em “tentativa de golpe”, a “maior armação já feita contra o governo”.

Em 2022, como candidato a presidente, Lula admitiu que houve corrupção na Petrobras, pois era impossível negar as inúmeras confissões e a devolução de bilhões de reais desviados. Ainda assim, a narrativa oficial petista sobre a Lava Jato é de uma conspiração urdida pelos Estados Unidos com magistrados e procuradores brasileiros para destruir a Petrobras. 

Em 2025, Lula anunciou que “a História vai provar” que os corruptos eram os que diziam haver corrupção na estatal. Segundo Lula, os delinquentes foram os que a investigaram. Com ajuda do ministro Dias Toffoli, o ex-advogado do PT que Lula colocou no Supremo Tribunal Federal (STF), criminosos confessos estão recuperando seu butim.

No mesmo escândalo, Lula sofreu duas condenações (ambas confirmadas pelo TRF4 e uma também pelo STJ, somando dez votos unânimes) a um total de 26 anos de prisão, dos quais cumpriu apenas 580 dias – até que o Supremo anulasse tudo sob o argumento extemporâneo de que a Justiça de Curitiba não tinha a competência que a própria Corte ratificara havia anos. Solto, disputou e venceu a eleição de 2022, sustentando a fraude segundo a qual ele foi “absolvido” pelo STF.

Lula também proclamou Dilma “absolvida”. Depois de encerrada uma ação de improbidade sobre manobras fiscais que nada tinha a ver com o impeachment da presidente, Lula concluiu que sua criatura fora julgada por algo que “não aconteceu” e disse que o Brasil lhe devia “desculpas” e “reparação”. 

O PT passou anos a chamar de “golpe” uma decisão do Congresso sob rito controlado pelo Supremo. Hoje o STF costuma classificar esse tipo de discurso, se proferido por simpatizantes de Jair Bolsonaro, como “atentado à democracia”. São outros tempos.

Lula não esquece as injustiças que diz ter sofrido e cobra reparações com zelo. Já para as promessas eleitorais abandonadas, dissidentes escoriados, adversários demonizados e seus amigos autocratas, a memória é seletiva. O passado inconveniente costuma ter vida curta. Já o passado útil é submetido a retoques sucessivos até adquirir a forma que convém a Lula no presente.

O PT votou contra grandes marcos civilizatórios da redemocratização, a começar pela própria Constituição, passando pelo Plano Real até a Lei de Responsabilidade Fiscal, sem jamais dar sinal de compunção. Como a culpa pela pior recessão da Nova República foi de Deus e o mundo, exceto do governo petista, Lula nunca achou que deveria se escusar.

É por isso que a “reparação histórica” de que fala o presidente merece ser levada a sério – só que não no sentido pretendido por ele. Se Lula quer acertar as contas da História, convém abrir o livro inteiro. Nele estão as culpas que o petismo terceirizou, as vítimas que transformou em algozes e as desculpas que nunca deu. Lula cobra reparações, mas o Brasil ainda espera que ele pague o que deve. As urnas estão aí para lhe antecipar o troco.


Opinião do Estadão

Nenhum comentário