PM catarinense é preso por atirar contra fugitivo que ameaçou matar moradores em Joinville
Condenado por disparar contra um carro em fuga, foi preso após a Justiça determinar o início da execução da pena de três anos em regime semiaberto
Domingo, 16 de agosto de 2026
A perseguição atravessou 17 quilômetros de Joinville na noite de 17 de fevereiro de 2020. Ao volante de um Gol vermelho, um motorista embriagado, que minutos antes gritava que ia matar os vizinhos, furava um sinal vermelho atrás do outro, fazendo o que uma testemunha descreveu como “roleta-russa” nos semáforos da cidade. O carro só parou quando disparos da Polícia Militar atingiram os pneus, já na saída para a BR-101. Seis anos depois, quem acabou preso foi o policial que atirou.
O subtenente Nelson de Oliveira e Silva, da PMSC, que na época dos fatos era sargento, foi preso para cumprir três anos de reclusão em regime semiaberto, além de 15 dias-multa, pela prática do crime de disparo de arma de fogo em via pública, previsto no Estatuto do Desarmamento. A prisão ocorre após decisão assinada em 29 de maio de 2026 pela Vara de Direito Militar da comarca da Capital, em Florianópolis, que determinou o início da execução da pena depois que o Superior Tribunal de Justiça negou o último recurso da defesa.
A prisão gerou revolta entre moradores de Joinville, onde o policial é tratado como uma lenda da corporação pela atuação firme no combate ao crime. Nas redes sociais, internautas questionam a punição de um agente que agiu para parar um motorista que ameaçava matar pessoas e colocava vidas em risco pelas ruas da cidade.
A perseguição
O caso começou por volta das 23h daquele 17 de fevereiro, nos bairros América e Glória. Vizinhos acionaram a Polícia Militar porque um homem transtornado, segundo as testemunhas embriagado, ameaçava matar moradores e chegou a avançar com o carro na direção das pessoas. Quando a primeira guarnição o abordou, ele xingou os policiais e arrancou em fuga.
A perseguição durou cerca de 12 minutos e se estendeu da Rua Japão até a saída da BR-101, num trajeto de aproximadamente 17 quilômetros. Segundo os policiais ouvidos no processo, o motorista furou cerca de dez semáforos e, ao encontrar uma barreira montada na Rua Max Collin, jogou o carro contra os agentes que tentavam pará-lo. Foi nesse contexto que as guarnições, entre elas a de Nelson, efetuaram os disparos que furaram os pneus e encerraram a fuga. Ninguém ficou ferido.
Em juízo, o próprio motorista admitiu que sua intenção naquela noite era matar os vizinhos e que, se os pneus não tivessem sido atingidos, continuaria fugindo. Ele também relatou ter recebido multa de R$ 10 mil pela ocorrência, que acabou registrada como crime de ameaça.
“Salvar uma vida”
Segundo o processo, o policial efetuou ao menos dez disparos de pistola calibre .40 durante a perseguição. No interrogatório, ele sustentou que agiu para proteger a vida de terceiros, já que o motorista usava o próprio carro como arma, e declarou que prefere “salvar uma vida a cumprir um POP”, em referência ao procedimento operacional padrão da corporação.
A Justiça Militar, porém, entendeu que a conduta foi desproporcional e contrariou o POP 006 da PMSC, que veda expressamente disparos com a finalidade de parar veículo em fuga. A pena ainda foi aumentada pela metade justamente por ele ser integrante de órgão de segurança pública. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina manteve a condenação e o STJ rejeitou o recurso final da defesa.
“Ganharia uma medalha”
À reportagem, o comandante-geral da PMSC, coronel Emerson, saiu em defesa do subtenente e afirmou que a corporação não tomará nenhuma medida administrativa contra ele.
“Tenho profundo respeito pelo Nelson. Sob o meu comando, não haverá nenhuma ação para puni-lo. Se dependesse de mim, ele ganharia uma medalha”, declarou o comandante-geral.
Único condenado
Outros três policiais militares que participaram da mesma ocorrência e também efetuaram disparos fecharam acordo de não persecução penal com o Ministério Público e tiveram a punibilidade extinta após o cumprimento das condições. Nelson foi o único condenado pelo episódio.

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