Estudo projeta alta de 17% no desmate após Abiove sair de acordo

Pesquisa publicada na revista Science estima perda adicional de 1,4 milhão de hectares na Amazônia até 2035

 Quarta-feira, 22 de julho de 2026 

A saída da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) da Moratória da Soja poderá provocar um aumento de 17% no desmatamento da Amazônia brasileira, ao longo da próxima década.

A estimativa consta em estudo publicado na quinta-feira (16), na revista científica Science, que projeta a perda adicional de até 1,4 milhão de hectares de floresta até 2035 e a emissão de aproximadamente 745 milhões de toneladas de gases de efeito estufa em equivalente de dióxido de carbono (CO₂).

A pesquisa recoloca Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, no centro de uma disputa que envolve preservação ambiental, competitividade do agronegócio e acesso aos mercados internacionais.

Em entrevista ao portal Diário de Cuiabá, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, classificou como "um grande equívoco" as iniciativas que resultaram no enfraquecimento da Moratória da Soja.

Segundo ele, o acordo consolidou a imagem da soja brasileira como produto associado à preservação ambiental e sua interrupção poderá comprometer mercados conquistados ao longo dos últimos anos, avaliação que ganha novo peso com a divulgação do estudo científico.

A pesquisa foi elaborada por pesquisadores das universidades de Wisconsin, Illinois e DePaul, nos Estados Unidos, utilizando informações de monitoramento ambiental compartilhadas por organizações como WWF Brasil e Greenpeace.

MUDANÇA COMEÇOU EM MT 

Criada em 2006, a Moratória da Soja é um compromisso voluntário firmado por empresas do setor, com apoio do Governo Federal e de organizações da sociedade civil.

A medida era para impedir a compra de grãos produzidos em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008, mesmo quando a supressão da vegetação ocorre dentro dos limites permitidos pelo Código Florestal Brasileiro.

O acordo passou a enfrentar forte resistência em Mato Grosso, a partir da aprovação da Lei Estadual nº 12.709/2024.

A norma retirou incentivos fiscais e restringiu o acesso a áreas públicas para empresas que adotassem compromissos privados mais rigorosos do que a legislação ambiental brasileira.

Após uma disputa judicial, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a autonomia do Estado para definir sua política de incentivos econômicos, permitindo que a lei entrasse em vigor em 1º de janeiro deste ano.

Poucos dias depois, em 5 de janeiro, a Abiove anunciou oficialmente sua saída da Moratória.

A entidade afirmou que a decisão buscava oferecer segurança jurídica às empresas associadas, entre elas Cargill, Bunge, ADM e Amaggi, e informou que cada companhia continuará adotando individualmente seus próprios sistemas de monitoramento para atender às exigências dos compradores internacionais.

O QUE PREVÊ O ESTUDO 

Os pesquisadores estimam que, sem a participação das principais tradings no acordo, cerca de 9,1 milhões de hectares de vegetação nativa em propriedades privadas passam a apresentar maior atratividade econômica para conversão em lavouras.

Além disso, outros 28,7 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas ficam sujeitos a maior pressão pela expansão da fronteira agrícola.

Desse universo, a projeção é de uma conversão líquida de aproximadamente 1,4 milhão de hectares até 2035.

O estudo também resgata estimativas de pesquisas anteriores indicando que, enquanto esteve plenamente em vigor, a Moratória reduziu em cerca de 35% o desmatamento nas áreas de maior risco para expansão da soja e evitou a derrubada de aproximadamente 1,8 milhão de hectares de floresta durante sua primeira década.

MT NO CENTRO DO DEBATE 

Embora o levantamento trate de toda a Amazônia Legal, Mato Grosso ocupa posição estratégica nas conclusões dos pesquisadores.

O Estado responde por quase um terço da produção brasileira de soja, concentra parte significativa das operações das tradings que deixaram a Moratória e possui cerca de metade de seu território inserido no bioma amazônico.

Essa combinação faz com que decisões tomadas no Estado tenham potencial para influenciar tanto a expansão da agricultura quanto os indicadores nacionais de desmatamento.

O governador Otaviano Pivetta (Republicanos) manteve a posição adotada anteriormente pelo governo estadual e defende que o Código Florestal Brasileiro já estabelece regras suficientes para garantir produção sustentável e preservação ambiental.

Na avaliação do Executivo, produtores que cumprem a legislação não devem ser submetidos a restrições comerciais adicionais impostas por empresas privadas ou mercados internacionais.

SETOR PRODUTIVO COMEMORA SAÍDA 

A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) considera a saída das tradings da Moratória como "a restauração da ordem jurídica no campo".

Em nota encaminhada ao DIÁRIO, a entidade sustenta que o único parâmetro para a produção agropecuária deve ser o Código Florestal Brasileiro, classificado como uma das legislações ambientais mais completas do mundo.

Segundo a federação, acordos privados não podem se sobrepor à legislação nacional, e produtores que possuem licenciamento ambiental regular e respeitam os limites legais de preservação não deveriam sofrer restrições comerciais adicionais impostas por compradores internacionais. 

A Famato também atribui o desfecho à atuação da Assembleia Legislativa, do Governo de Mato Grosso e às decisões do Supremo Tribunal Federal, mas afirma permanecer atenta para evitar que as exigências da antiga Moratória retornem sob a forma de políticas internas das empresas.

Posição semelhante foi manifestada pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT).

Para a entidade, a Moratória sempre representou uma restrição indevida à livre iniciativa e à soberania nacional, ao impor exigências superiores às previstas na legislação brasileira.

A associação defende que produtores que cumprem integralmente o Código Florestal não podem ser penalizados comercialmente por acordos privados e lembra que foi a própria Aprosoja quem provocou a abertura de investigação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para apurar possível prática anticoncorrencial decorrente da Moratória.

DIVERGÊNCIA SOBRE MERCADOS 

O estudo reforça uma divergência que já vinha sendo exposta entre o Governo Federal e o setor produtivo.

Para o ministro João Paulo Capobianco, a Moratória consolidou-se ao longo de quase duas décadas como um diferencial competitivo da soja brasileira, principalmente diante dos mercados europeus, que adotam regras cada vez mais rigorosas de rastreabilidade e sustentabilidade.

Segundo o ministro, o Brasil dispõe de extensas áreas já abertas e aptas à produção agrícola, o que torna desnecessária a expansão sobre vegetação nativa.

Ele afirma ainda que o Governo Federal atuou contra o enfraquecimento do acordo em diferentes instâncias judiciais por entender que sua extinção poderá gerar custos econômicos ao próprio agronegócio brasileiro, colocando em risco mercados conquistados ao longo dos últimos anos.

Os autores do estudo seguem a mesma linha ao destacar que a Moratória se tornou uma referência internacional de credibilidade ambiental para a soja produzida no Brasil.

Na avaliação dos pesquisadores, o enfraquecimento do compromisso pode ampliar a desconfiança de compradores estrangeiros e favorecer o surgimento de novas barreiras comerciais.

A Abiove, por outro lado, sustenta que o Código Florestal Brasileiro e as normas ambientais vigentes já oferecem garantias suficientes para assegurar a legalidade da produção nacional.

A entidade afirma que suas empresas associadas continuarão utilizando mecanismos próprios de monitoramento e rastreabilidade para atender às exigências dos clientes internacionais.

A publicação do estudo na Science amplia um debate que vai além da preservação da Amazônia.

Em jogo estão o modelo de expansão da agricultura brasileira, a competitividade da soja nacional e a confiança dos mercados internacionais na capacidade do país de conciliar produção e conservação ambiental.


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