Os Trilhos do Futuro: Cuiabá Entre Dois Mundos
Segunda-feira, 22 de junho de 2026
Assisti recentemente ao clássico Era uma Vez no Oeste (1968) do Diretor Sérgio Leone (1968) e não consegui deixar de pensar em Mato Grosso.
O filme não fala apenas de vingança ou de cowboys. Fala sobre transição. Sobre o momento em que um mundo antigo percebe, tarde demais, que será substituído por outro.
No enredo, ambientado no séc. XIX, a chegada da ferrovia muda tudo. Os homens armados, cowboys, coronéis e aventureiros — entendem que não serão mais os protagonistas da história. O futuro pertencerá aos que compreenderem a nova lógica econômica das ferrovias.
A frase mais importante do filme talvez nem seja dita explicitamente: quem controla os trilhos controla o futuro.
Há mais de cem anos, Mato Grosso viveu algo semelhante.
A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1914, deslocou o eixo econômico do antigo Estado. Cuiabá continuou sendo a capital política, mas Campo Grande, conectada aos trilhos e a São Paulo, tornou-se a capital econômica do sul.
Era o velho mundo cedendo espaço ao novo, causando uma cisão.
Hoje, a história parece rimar.
Passados mais de cem anos, a expansão ferroviária em direção ao norte, tendo Lucas do Rio Verde como símbolo, representa uma nova mudança de era.
O centro dinâmico da economia já não está na mineração, no funcionalismo ou no comércio tradicional. Está na logística, na agroindústria, na tecnologia aplicada ao campo e na inserção global.
Mais uma vez, Cuiabá encontra-se diante de um dilema. Mas, dessa vez, fazendo parte dele.
No filme, muitos personagens acreditam que o passado continuará. Não continua. Outros lutam contra a ferrovia. Perdem.
Os que prosperam são aqueles que entendem que a modernidade não pode ser detida; pode apenas ser aproveitada.
Esse talvez seja o maior ensinamento para Cuiabá.
A capital não precisa disputar com Lucas do Rio Verde a produção de soja, assim como Amsterdam não precisou ser Rotterdam e Washington não precisou ser Detroit.
As cidades vencedoras não tentam ser aquilo que já não podem ser.
Elas descobrem um novo papel.
Cuiabá possui universidades, hospitais, centros de decisão política, serviços especializados e uma identidade cultural única no Centro-Oeste. Pode tornar-se o grande centro de inteligência, inovação e serviços do agronegócio brasileiro.
Mas isso exige abandonar a nostalgia.
Porque a nostalgia é sedutora.
Ela faz acreditar que a importância adquirida no passado, somente por isso, garante relevância no futuro.
Não garante.
Em Era Uma Vez no Oeste, o som do trem anuncia o nascimento de um novo mundo.
Em Mato Grosso, o apito dos novos trilhos também já pode ser ouvido.
A questão não é se a mudança virá.
Ela já chegou. Ontem 20/07/2026 foi inaugurado o primeiro trecho da ferrovia até Dom Aquino.
Na cena final do filme clássico , Jill, personagem de Claudia Cardinale, distribui água aos trabalhadores da ferrovia, enquanto Harmonica, personagem de Charles Bronson, se afasta montado a cavalo até desaparecer no horizonte.
É a despedida do velho Oeste e a chegada de um novo tempo.
A questão é quem compreenderá primeiro que o futuro pertence menos aos herdeiros do passado e mais àqueles capazes de construir seu lugar no novo.
Cuiabá pode ser algo mais do que uma plataforma de embarque e desembarque de bens comprados no litoral.
Os trilhos chegarão.
O que ainda não sabemos é se Cuiabá terá um novo rumo depois que os trilhos chegarem.
*SUELME FERNANDES é Professor, Historiador do IHGMT e Gestor da Empaer.


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