“Lutei para provar quem sou”, para ser empossada no Itamaraty do governo Lula, após uma banca negar que sou negra
Flávia Medeiros, 29, passou no Concurso Público para cargo no Itamaraty, mas, teve batalha para ser empossada, após uma banca negar que ela é negra
Domingo, 28 de junho de 2026
Era 2 de abril de 2026, data que entrou para minha história de vida: fui empossada como oficial de chancelaria do Itamaraty. Me preparei por uma década até chegar lá, tempo em que estudei a fundo relações internacionais, em Minas Gerais.
Minha alegria, porém, durou pouco. Não passou um mês, e me exoneraram do cargo. A razão: eu não estava apta a assumir uma vaga que havia obtido via sistema de cotas.
A chamada banca de heteroidentificação racial, equipe de confiança do governo que avalia se a pessoa reúne mesmo características negras, seja de pretos, seja de pardos, havia concluído que eu não me encaixava já no início do processo, em 2024.
Na ocasião, o resultado do concurso nem havia saído. A banca alegava que, ao contrário do que eu declarava, não era parda. A partir daí resolvi encarar uma desgastante batalha judicial. Venci e, quando o juiz decidiu a meu favor, achava que estava tudo resolvido, mas era só o começo de uma luta que durou dois intermináveis anos.
Apenas agora pude comemorar de verdade, serei, enfim, nomeada ao posto que conquistei e com o qual tanto sonhei.
Sou de uma família humilde de professores. Meus pais nunca puderam pagar meus estudos. Tudo o que consegui foi por meio de bolsas e oportunidades que me foram oferecidas, de tanto que tentei. Quando entrei na universidade, vi no Itamaraty uma chance de crescer e ainda ajudar minha família.
Foram onze anos entre o início da graduação até a posse, aquela que acabou sendo provisória. Tirei ótimas notas no concurso e estava para ser chamada quando fui avaliada pela banca, em Brasília.
Enquanto candidatos de pele preta apenas informavam nome e número de inscrição, os pardos como eu eram submetidos a perguntas adicionais sobre a identidade racial.
Respondi a todas, embora me sentisse meio desconfortável. Pareciam duvidar de algo que, para mim, me define: sou e sempre serei uma mulher negra, filha de pais negros. Mas, para os integrantes da banca, meus traços eram finos; meu cabelo, liso; e minha pele, clara. E, por isso, me reprovaram.
Fiquei abaladíssima. Embora respeite o trabalho das bancas de heteroidentificação, por sua função de servir como barreira contra aqueles evidentes casos de gente mal-intencionada que mente para ter acesso às cotas, acho que esse sistema não tem o direito de determinar a identidade de alguém com minhas características que se autodeclara negra.
Me bateu uma crise. Não foi fácil ganhar autoestima, justamente por ser negra. Passei a vida inteira tendo que lidar com o racismo.
Ao saber da reprovação, precisei de todo o apoio da família e dos amigos para, enfim, entender que aquele lugar no Itamaraty era meu por suor e mérito. Tinha que brigar por ele. Foi então que procurei a Justiça em março de 2024.
O objetivo não era apenas garantir a vaga, mas também reafirmar minha própria identidade.
Quando, já empossada, me tiraram do cargo, senti, além do baque pela injustiça, uma profunda angústia. Havia ainda a questão prática, deixei o emprego que tinha antes em uma ONG e estava sem nenhuma renda.
No fim, acabei fazendo um acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU), que reconheceu haver problemas com as bancas de heteroidentificação e disse que está se mexendo para impedir que novos casos como o meu voltem a acontecer. Na própria sede da AGU, na presença do advogado-geral da União, assinei o documento que garante meu retorno ao Itamaraty.
Que isso contribua para que histórias assim não se repitam. Meu sentimento agora é sobretudo de alívio. Virei uma página. Não preciso mais provar para ninguém quem eu sou.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), também conhecido como Itamaraty, é um órgão do Poder Executivo, responsável pelo assessoramento do Presidente da República na formulação, no desempenho e no acompanhamento das relações do Brasil com outros países e organismos internacionais.
Flávia Medeiros em depoimento a Flávio Monteiro
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
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