Dólar dispara e fecha em R$ 5,17 após decisões de juros

 Sexta-feira, 19 de junho de 2026 

O dólar disparou 1,26% nesta quinta-feira (18) e fechou cotado a R$ 5,174, na esteira das decisões de política monetária do Brasil e dos Estados Unidos. Cada uma, ao seu modo, contribuiu para a valorização da moeda americana.

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, como amplamente esperado. A surpresa, no entanto, veio pela comunicação considerada mais suave no combate à inflação.

Já o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) também foi em linha com as expectativas e manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%. A autoridade dos EUA, porém, adotou uma postura "hawkish", isto é, dura no combate à inflação, abrindo a porta para novas altas até o final do ano.

O somatório das decisões levou a moeda a operar em forte alta desde o início do dia, tendo atingido a máxima de R$ 5,190 no pico da sessão. Os juros futuros também dispararam, com os vencimentos de médio e longo prazo subindo mais de 0,2 ponto percentual em alguns pontos.

O vencimento para janeiro de 2029, por exemplo, avançou para 14,82%, alta de 0,22 ponto percentual em relação ao ajuste pré-Copom. A taxa para janeiro de 2035 avançou para 14,56%, avanço de 0,21 ponto ante a véspera. "Juros mais baixos hoje, com a inflação desancorada, exigem juros ainda mais altos no futuro", explica Lais Costa, especialista em renda fixa da Empiricus.

Os vencimentos mais curtos exibiram ajustes para baixo, refletindo a perspectiva de uma Selic menor do que o esperado até então. O DI (Depósito Interbancário) para janeiro de 2027 ficou em 14,24%, em baixa de 0,06 ponto percentual ante a véspera.

A Bolsa, por outro lado, oscilou entre os sinais durante o pregão e fechou em variação negativa de 0,1%, a 168.277 pontos.

No Brasil, analistas se surpreenderam com a extensão do horizonte relevante para a convergência da inflação à meta de 3%, que mudou do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028.

Isso significa que o Copom aumentou o prazo para cumprir seu objetivo, deixando os próximos passos em aberto ao argumentar que avalia trajetórias de juros "alternativas" para atingir a meta de inflação em um horizonte um pouco mais distante.

Esse movimento foi lido pelo mercado como uma postura mais suave em relação ao combate à inflação, abrindo caminho para mais reduções de juros ao longo do ano, e como uma forma de justificar o corte de 0,25 ponto percentual mesmo em meio à piora dos índices inflacionários.

Os dados do boletim Focus, divulgados na última segunda (15), mostram um afastamento das projeções para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em relação ao alvo de 3%.

Para este ano, houve um salto de 5,11% para 5,30% –bem acima do teto da meta (4,5%). A estimativa de inflação para 2027 –prazo até então na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia–, atingiu 4,10% (contra 4% quatro semanas antes). A projeção do IPCA para 2028 também subiu, a 3,68% (ante 3,65%).

"Essa decisão do Banco Central e essa sinalização futura nos leva a acreditar que o BC tem uma preferência neste momento por continuar no ciclo de corte de juros", diz Carlos Lopes, economista do banco BV.

Esse foi o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto na taxa básica de juros após o BC iniciar em março o chamado ciclo de "calibragem" da Selic, ainda em nível historicamente alto, mas o mais baixo desde maio do ano passado, quando também estava em 14,25%.

O corte na Selic e a sinalização de continuidade do ciclo, segundo Leonel Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, diminuem a atratividade dos ativos brasileiros e "geram pressão sobre a taxa de câmbio, contribuindo para a desvalorização do real", afirma.

Isso porque o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tem sido apontado como um dos principais fatores de atração de capital estrangeiro. A disparidade da Selic em relação aos Fed Funds torna um bom negócio a estratégia de "carry trade", isto é, de tomar recursos em economias de taxas baixas, como a americana ou a japonesa, e aplicá-los aqui, para rentabilizar sobre essa diferença percentual.

Com a perspectiva de uma Selic mais baixa, uma das pontas desse "carry trade" se enfraquece. E a outra, a dos juros americanos, também deu motivo na véspera para que os investidores fugissem do mercado brasileiro.

Ainda que a manutenção dos juros dos EUA já fosse esperada, o mercado foi pego de surpresa com a previsão de 9 entre 19 membros do Fed de que haverá ao menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa neste ano —destes, 6 esperam ao menos duas elevações. Outros 9 não esperam alteração, e Kevin Warsh, novo presidente do Fed, se absteve de fazer projeções.

A entrevista coletiva de Kevin Warsh, a primeira dele à frente do cargo, também foi lida pelo mercado como "hawkish", ou seja, dura no combate à inflação.

"A surpresa não foi a manutenção dos juros, mas o tom da coletiva. O mercado buscava sinais de uma postura mais favorável a cortes, mas Warsh estreou reforçando o compromisso com a inflação e com a credibilidade do Fed. No fim, mais do que a decisão em si, a mensagem mexeu com as expectativas para os próximos meses", diz Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.

O tom já apareceu no comunicado. Em um sinal inicial da influência do novo chair do Fed, o comitê removeu completamente qualquer orientação sobre movimentos futuros dos juros. O novo formato simplesmente informou a decisão sobre a taxa e reafirmou que "o Comitê entregará estabilidade de preços."

"Foram declarações mais conservadoras do que o mercado esperava. Isso elevou as apostas para uma trajetória de juros mais alta nos Estados Unidos. Atualmente, os investidores majoritariamente projetam três altas de juros pelo Fed até janeiro de 2027, contra apenas uma antes da decisão anunciada ontem", diz Leonel Mattos, da StoneX.

"Esse cenário favorece os juros americanos, eleva os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, as treasuries, e aumenta a atração de capitais externos para o país. Consequentemente, fortalece o dólar globalmente e gera pressão sobre a taxa de câmbio brasileira."

Em conjunto, expectativas de uma Selic mais baixa no Brasil e juros mais altos nos Estados Unidos pioram o diferencial de juros brasileiro. "Isso reduz a atratividade dos títulos nacionais para investidores estrangeiros e dificulta a entrada de capital externo", afirma Mattos.


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