Politica era assunto de Gigantes, com respeito entre as diferentes ideologias
ARTIGO
Terça-feira, 21 de abril de 2026
Nos dias que antecederam o impeachment de Collor, Roberto Campos encontrava-se internado no hospital tratando-se de uma crise reumática.
Ulysses Guimarães sabendo que Roberto Campos era favorável ao impeachment de Collor, perguntou a Campos se ele poderia comparecer na votação. Roberto confirmou sua presença:
"Enfrentarei o risco e o desconforto: era a ocasião de transformar um acidente de ingovernabilidade em uma lição de moralidade".
Em A Lanterna na Popa, Roberto Campos descreve, em um breve capítulo, esse encontro tardio com Ulysses Guimarães como sendo o "encontro da quarta esquina da vida" pois ambos estavam com 75 anos, e já se conheciam há cinquenta e nunca haviam conversado ao telefone. Apenas breves conversas formais. Um mútuo respeito, mas sem afeição.
No seu típico senso de humor, Roberto escreve o self-talking que cada um teria em relação ao outro:
"Esse Campos escreve bem, talvez mereça a Academia Brasileira de Letras, mas em política é pouco relevante, um peso leve, sem paciência para articulação".
"Esse Ulysses é um dínamo político, mas é perigosamente desinformado em economia. Vai na conversa do primeiro esquerdista que lhe sussurra slogans socializantes e o chama de progressista".
Roberto Campos continua:
"Subestimávamo-nos ambos. Éramos mais complementares que competitivos. Para Ulysses, o supremo valor era a relevância política. Para mim, a consciência econômica. Eu via no Ulysses um Dom Quixote da democracia. Ele me considerava um Sancho Pança na economia."
Roberto Campos comenta que quando Ulysses foi eleito presidente da assembleia constituinte pensou em procurá-lo. Mas ele havia se cercado das esquerdas e do PMDB.
Roberto Campos queria alerta-lo quanto ao populismo insustentável da nossa Carta Magna, aliás, assinada às vésperas da queda do Muro de Berlim e do colapso do socialismo que Campos profetizara.
Um dos nossos azares foi ter discutido a constituição antes da queda do socialismo e não depois, já munidos com algumas doses de realidade. Ulysses chamava nossa constituição de "Constituição Cidadã". Roberto Campos a chamava de "Constituição Besteirol".
Como a história conta, Roberto Campos foi à votação do impeachment, de cadeira de rodas. Foi o primeiro a votar.
No dia seguinte, 30/09/1992, Ulysses liga para o hospital:
- Fiquei com ciúme, Roberto. Você foi mais aplaudido do que eu.
- Ora, que egoísta. Você sempre ficou com os aplausos e eu com os sopapos, respondeu Roberto.
Em tempo - O editor de A Lanterna na Popa, José Mário Pereira (TopBooks), esclarece que Roberto Campos estava hospitalizado por conta de comida estragada que consumiu em um restaurante japonês de SP, e não por crise reumática. "O restaurante era o melhor japonês de SP. O homem quase morre", explica.

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