EUA expulsam delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem

Em outubro de 2016, ele atropelou e matou um trabalhador numa rodovia em SP, dirigindo embriagado e com a habilitação vencida

 Segunda-feira, 20 de abril de 2026 

O governo dos Estados Unidos determinou que um delegado brasileiro envolvido na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) deixe o país. A decisão foi divulgada nesta segunda-feira (20) pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental.

Sem mencionar inicialmente o nome do agente, autoridades norte-americanas afirmaram, em publicação oficial nas redes, que o delegado teria tentado “contornar pedidos formais de extradição” para realizar “caça às bruxas” em território dos Estados Unidos.

“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caça às bruxas políticas em território dos EUA. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso”, diz a nota.

O agente é Marcelo Ivo de Carvalho, delegado da Polícia Federal. Ele trabalhava como oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE).

Marcelo Ivo ocupa o cargo desde agosto de 2023. Com quase 23 anos de Polícia Federal, já atuou como delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado em São Paulo, entre março de 2018 e maio de 2021, e como superintendente da PF na Paraíba, de fevereiro de 2022 a janeiro de 2023.

Na quinta-feira da semana passada, representantes da Polícia Federal participaram de uma reunião com autoridades dos Estados Unidos, em Miami, para esclarecer as circunstâncias da liberação de Alexandre Ramagem.

A soltura do ex-deputado, dois dias após a prisão pelo ICE, surpreendeu os investigadores brasileiros. Marcelo Ivo esteve presente no encontro com o órgão de imigração.

O governo dos Estados Unidos não detalhou quais ações específicas teriam motivado a decisão nem informou prazos para o cumprimento da determinação.

Até o momento, não houve manifestação pública do delegado ou da Polícia Federal sobre o caso.

Ramagem foi liberado por autoridades dos Estados Unidos no último dia 15, após ser detido na Flórida em decorrência de uma denúncia considerada equivocada.

A abordagem ocorreu após a polícia rodoviária local receber informações de que ele estaria dirigindo com a habilitação vencida e em situação irregular no país, sob a alegação de ser foragido da Justiça brasileira. Ele foi interceptado enquanto saía de casa de carro, nas proximidades de uma escola.

Segundo o SBT News, agentes do ICE não tinham conhecimento prévio sobre a identidade de Ramagem. O caso ganhou repercussão interna após o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, solicitar esclarecimentos formais sobre a detenção.

Ainda de acordo com a reportagem, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) teria conversado com Rubio sobre o episódio antes do pedido de informações ao órgão de imigração. Após a intervenção do Departamento de Estado, foi identificado que o detido havia presidido a Agência Brasileira de Inteligência, Abin.

A expulsão de Marcelo Ivo soa como derrota para o governo Lula e para o PT, que chegou a comemorar a prisão de Ramagem, dizendo que ele seria deportado, no entanto, ele foi solto logo após 40 horas da detenção. 

Quem é Marcelo Ivo

Marcelo Ivo de Carvalho nasceu em 20 de agosto de 1976 em Santos, no litoral paulista. Ingressou na Polícia Federal em junho de 2003 como delegado. Antes da transferência para Miami, residia na Vila Leopoldina, em endereço de alto padrão na capital paulista.

Hoje, Ivo ocupa o posto mais estratégico da Polícia Federal nas Américas: é o único delegado federal brasileiro lotado dentro das dependências do ICE nos Estados Unidos. Opera no escritório de Miami, no endereço 11226 NW 20th Street — o centro a partir do qual o ICE coordena operações migratórias em toda a Flórida, inclusive em Orlando. É esse o homem que, segundo o próprio diretor-geral Andrei Rodrigues, “deu alertas que auxiliaram na detenção” de Alexandre Ramagem em 13 de abril de 2026.

Marcelo Ivo iniciou sua carreira na Delegacia Regional da PF de Sorocaba. Em outubro de 2016, já era o delegado-chefe da Delegacia da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, a maior e mais estratégica unidade desse tipo no Brasil. A posição lhe conferia poder sobre a rotina operacional do principal ponto de entrada e saída internacional do país, com acesso a sistemas de identificação de passageiros e capacidade de decisão sobre áreas sensíveis do maior terminal aéreo da América Latina.

Neste período, sua face pública era a de um delegado duro no combate ao tráfico internacional. Em maio de 2016, coordenou a Operação Carga Extra, que desmantelou uma rede de funcionários terceirizados que embarcava cocaína em voos para a Europa — resultado de oito meses de investigação, 15 mandados de busca, 14 prisões e a apreensão de cerca de meia tonelada de droga. Foi nesta posição que Ivo passou a cultivar uma rede extensa de relações com empresários, contatos que teria mantido e acionado ao longo dos anos seguintes.

Bebeu, atropelou, matou, mas ficou no cargo

Em outubro de 2016, Marcelo Ivo de Carvalho atropelou e matou um trabalhador numa rodovia de Sorocaba, dirigindo embriagado e com a carteira de habilitação vencida havia mais de um ano — mas não perdeu o cargo nem foi responsabilizado criminalmente.

Ironicamente, a irregularidade usada como desculpa para derrubar Ramagem foi justamente a falta de habilitação válida para dirigir nos Estados Unidos. No caso de Marcelo Ivo, porém, a ausência de uma carteira regular não impediu que escapasse da prisão, mantivesse o cargo e mais tarde ascendesse ao posto mais estratégico da Polícia Federal nas Américas.

Marcelo Ivo saiu de São Paulo na madrugada de domingo de 23 de outubro de 2016 em uma Mercedes-Benz branca apreendida pela PF, autorizada para seu uso como chefe da delegacia aeroportuária. Seguia pela Rodovia Raposo Tavares para visitar os pais no interior de São Paulo — uma viagem pessoal, com viatura de serviço.

No km 94, em Sorocaba, por volta das 6h, o veículo atingiu a motocicleta de Francisco Lopes da Silva Neto, 36 anos, vigilante que voltava para casa em Votorantim após o turno noturno em uma indústria. Francisco havia emigrado do Ceará e conciliava dois empregos. O impacto destruiu a moto, lançou Francisco contra a barreira metálica e o matou no local. O carro parou a 100 metros do ponto de colisão.

A Polícia Rodoviária aplicou o bafômetro no local. O resultado foi 0,49 miligramas de álcool por litro de ar expirado — valor que supera o limite criminal de 0,34 mg/L estabelecido pela Resolução Contran nº 432/2013. A Carteira Nacional de Habilitação de Marcelo Ivo estava vencida havia um ano e três meses no momento do acidente. Ele foi preso em flagrante por homicídio culposo sob influência de álcool. O delegado plantonista que o atendeu, Régis Campos Vieira, afirmou que Ivo “não apresentava sinais aparentes de embriaguez” e o liberou mediante fiança de R$ 2.000.

A PF abriu sindicância interna. Marcelo Ivo não foi afastado do cargo. O processo penal tramitou em segredo de Justiça pelo TJSP. Em 22 de setembro de 2020, quatro anos depois —, a Justiça paulista julgou a ação improcedente por insuficiência de provas. 

O argumento da defesa que pesou no tribunal: um laudo toxicológico produzido no processo cível, e não no penal, descartou alteração psicomotora; uma perícia de local indicou que o veículo trafegava dentro dos limites de velocidade; e câmeras da empresa onde Francisco trabalhava teriam registrado a lanterna traseira da moto apagada antes de ele sair. O processo transitou em julgado em 5 de outubro de 2020.

A viúva de Francisco, Verlange Xavier da Silva, declarou em entrevista que “ninguém esquece” e que a dor pela morte do marido, pai de duas filhas que tinham 4 e 12 anos na época, permanece presente. Como único resultado concreto para a família: uma pensão mensal de R$ 800, determinada judicialmente. Fontes descrevem o desfecho como resultado de articulação intensa dentro e fora da corporação.



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