Rios que alimentam o Pantanal, podem ser afetados por mais de 120 barragens

O rio Cabaçal, no Mato Grosso, é considerado um dos últimos rios livres da região. 


 Domingo, 29 de março de 2026 

A conservação das espécies migratórias no Pantanal depende diretamente da integridade e da conectividade dos rios, base também para a pesca artesanal, atividade que sustenta comunidades em toda a Bacia do Alto Paraguai (BAP). 

Em um momento em que o tema ganha destaque internacional durante a COP15, a Ecoa – Ecologia e Ação reforça a necessidade de manter rios livres de barragens para garantir o equilíbrio ecológico e social da região.

A BAP, responsável por alimentar o Pantanal, abriga atualmente dezenas de empreendimentos hidrelétricos em operação, além de um conjunto expressivo de projetos em fase de planejamento e implementação. Esse cenário acende um alerta para os impactos cumulativos sobre os rios e seus ecossistemas.

Mesmo empreendimentos considerados de menor porte, como as represas chamadas de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), podem provocar efeitos significativos quando analisados em conjunto. 

Entre os principais impactos estão a fragmentação dos rios, alterações no fluxo de água, sedimentos e nutrientes, além da perda de conectividade entre diferentes trechos da bacia.

“Atualmente, as 58 represas em operação na BAP estão na parte alta (planalto) e, além disso, outros 65 empreendimentos estão previstos. Se isso se concretizar, serão mais de 120 empreendimentos fragmentando os rios que abastecem o Pantanal e acarretando vários outros problemas socioambientais” alerta Fernanda Cano, analista de conservação da Ecoa.

A conectividade hídrica é um elemento-chave para a sobrevivência de diversas espécies migratórias. Peixes como o dourado percorrem longas distâncias para reprodução e dependem de rios livres para completar seu ciclo de vida. A interrupção desse fluxo compromete não apenas a biodiversidade, mas também atividades econômicas como a pesca e o turismo.

Os impactos não se restringem à biodiversidade. Na Bacia do Alto Paraguai, pescadores artesanais dependem diretamente dos ciclos naturais dos rios para sua subsistência. A interrupção da conectividade hídrica compromete os estoques pesqueiros, afetando renda, segurança alimentar e modos de vida tradicionais.

A Elaboração de Estudos de Avaliação dos Efeitos da Implantação de Empreendimentos Hidrelétricos na Região Hidrográfica do Rio Paraguai, realizada pela Agência Nacional de Águas (ANA), aponta que múltiplas espécies de peixes migratórios na região são diretamente afetadas pelo represamento dos rios, com consequências que incluem a fragmentação de áreas de desova, alterações na dispersão de ovos e redução dos estoques pesqueiros.

“O Brasil tem muito potencial para a implementação de outras fontes de energia, então, permanecer nessa matriz energética é assumir um risco para as espécies migratórias”, conclui Fernanda.

Experiências de conservação reforçam caminhos possíveis

Iniciativas recentes demonstram que é possível conciliar conservação e mobilização social em defesa dos rios. A atuação da Ecoa contribuiu para barrar a instalação de empreendimentos hidrelétricos na região da Cachoeira Água Branca, um importante patrimônio natural da bacia.

Rio Cabaçal

Outro exemplo relevante é o rio Cabaçal, no Mato Grosso, considerado um dos últimos rios livres da região. 

A mobilização de organizações locais, com apoio da Ecoa, fortaleceu a proteção do território e contribuiu para a criação do Monumento Natural do Rio Cabaçal, uma medida estratégica para a conservação da biodiversidade e dos fluxos ecológicos essenciais. 

O rio Cabaçal desempenha papel fundamental na manutenção do Pantanal, conectando diferentes biomas e abrigando nascentes importantes, além de ser rota para espécies migratórias de relevância ecológica e econômica.

No contexto da COP15, o fortalecimento de iniciativas que mantêm rios livres e promovem a conservação integrada da Bacia do Alto Paraguai se mostra fundamental para assegurar o futuro das espécies migratórias, da pesca e dos ecossistemas que sustentam o Pantanal.



  Com Jornal Estadão Mato Grosso  

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