Número de meninas que relatam tristeza e acham que a vida não vale a pena é o dobro do de meninos (IBGE)
Elas também são as principais vítimas de bullying, têm vontade de se ferir e são menos satisfeitas com seus corpos
Domingo, 29 de março de 2026
A quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que meninas sofrem mais do que os meninos durante a adolescência. O levantamento com estudantes de 13 a 17 anos revela que o dobro delas sente maior tristeza "na maioria das vezes" ou "sempre", tem mais vontade de se machucar e acha que a vida não vale se vivida. Além disso, há três vezes mais alunas cuja autoavaliação em saúde mental foi negativa do que entre os alunos. Os dados referentes ao ano de 2024 foram divulgados nesta quarta-feira.
"É notável que foram as meninas a se sentirem mais tristes, mais preocupadas, mais irritadas, nervosas ou mal-humoradas, que mais se machucaram intencionalmente, que mais perceberam que ninguém se preocupava com elas e que mais sentiram que a vida não valia a pena ser vivida. Apenas quanto ao número de amigos é que as meninas ficaram em posição superior aos meninos, quando eles relataram mais frequentemente que elas não terem amigos próximos", diz o relatório da Pense.
Um dos pontos que ajudam a explicar por que as meninas aparecem com indicadores mais graves de sofrimento está fora da escola, e começa dentro de casa. Para a psicóloga e professora da Unesp Claudia Prioste, há um ambiente de vulnerabilidade que antecede a vida escolar. Ela aponta que o aumento da violência doméstica e a fragilização das redes de apoio atingem diretamente as adolescentes.
— O lar, que deveria ser um espaço de proteção, muitas vezes é o lugar mais perigoso para essas meninas. Muitas crescem expostas ao sofrimento das mães e assumem responsabilidades precoces, o que contribui para quadros de estresse contínuo. Isso gera um transtorno que não exatamente uma depressão isolada, mas um fenômeno mais amplo de estresse pós-traumático. A sobrecarga emocional, somada à falta de suporte efetivo, ajuda a entender por que sentimentos como tristeza persistente, abandono e desesperança aparecem com tanta força nos dados do IBGE — ilustra a especialista.
As jovens também são as principais vítimas de bullying nas escolas. Segundo o levantamento, um quarto (27,2%) dos alunos do país relata que, nos 30 dias antes da pesquisa, pelo menos duas vezes algum "colega da escola o esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou" tanto que "ficou magoado, incomodado, aborrecido, ofendido ou humilhado". Entre as meninas, esse índice sobe para 30,1%, contra 24,3% dos meninos. Por outro lado, 13,7% declaram ter praticado bullying contra seus colegas — sendo 16,5% entre os meninos e 10,9% das meninas.
Percentual de escolares de 13 a 17 anos que se sentiu triste na maioria das vezes ou sempre
Nos 30 dias anteriores à pesquisa, por edição da pesquisa, segundo o sexo (Em %)
As redes sociais funcionam como um amplificador dessa pressão, especialmente entre as meninas. Segundo a psicóloga Anna Lucia Spear King, jovens com baixa autoestima tendem a buscar validação nesses ambientes.
— Eles colocam a própria felicidade na mão do outro. No caso das meninas, a cobrança estética é ainda mais intensa. O padrão exigido para a mulher é muito mais rigoroso. Muitas não postam uma foto sem filtro, e quando postam, são duramente criticadas — afirma.
Esse ambiente de comparação e julgamento constante pode agravar quadros de ansiedade, depressão e insatisfação corporal. Para Tatiana Serra, as redes antecipam processos e aumentam a pressão sobre adolescentes.
— As meninas são forçadas a amadurecer mais cedo, a se comparar com realidades inalcançáveis. É um ecossistema que reforça a sensação de inadequação — diz.
Ao mesmo tempo, a socialização de meninos segue caminhos distintos, o que também impacta os resultados. Enquanto elas são ensinadas a internalizar o sofrimento, eles são estimulados a expressar força e agressividade.
— Os meninos são socializados para serem fortes, valentões, e muitas vezes aprendem que a violência traz benefícios sociais. Esse modelo ajuda a entender por que eles aparecem mais como autores de bullying, enquanto as meninas concentram os indicadores de sofrimento emocional. Esse modelo ajuda a entender por que eles aparecem mais como autores de bullying, enquanto as meninas concentram os indicadores de sofrimento emocional — diz Prioste.
Para as especialistas, fortalecer vínculos dentro da escola é essencial para identificar precocemente o sofrimento. Segundo elas, a relação entre professor e aluno está fragilizada, mas ainda é a principal via de acesso.
— Quando há confiança, o aluno fala. Muitas vezes começa a chorar ao ser ouvido — diz Prioste.
Para ela, ampliar a presença de psicólogos e criar canais seguros de escuta pode ser decisivo. Já no campo individual, Tatiana Serra defende que o enfrentamento do trauma passa, antes de tudo, pela escuta. Segundo ela, rodas de conversa, grupos de apoio e educação emocional são caminhos fundamentais para reduzir o sofrimento.
— Não se combate o que foi vivido ignorando. É preciso criar espaços onde essas meninas possam falar, sem medo de retaliação — afirma.
A Pense entrevista alunos de escolas públicas e privadas, entre o 7º ano do ensino fundamental até o 3º do ensino médio, com uma amostra representativa do país. Ela reúne informações sobre fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes. Realizada desde 2009 pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação (MEC), acompanha temas como hábitos alimentares, atividade física, uso de substâncias, saúde mental, violência e ambiente escolar.
Veja os indicadores
Os dados mostram que há duas vezes mais meninas nessa faixa etária se dizendo tristes do que meninos. Quatro (41%) entre dez delas relatam esse sentimento. Entre os meninos, esse patamar cai para 16% — o que significa três em cada 20 estudantes.
— Essa diferença é muito grande. Mais do que o dobro. No total, 28,9% dos alunos de 13 a 17 anos disseram se sentir tristes. Na escola pública, é 29,2%. Na privada, 27,2%. Ou seja, as questões socioeconômicas influenciam menos do que as questões de gênero, que precisam ser estudadas e analisadas para a saúde dessas meninas — afirmou Marco Andreazzi, gerente de Pesquisas Especiais do IBGE.
Há ainda outros indicadores que as alunos apresentam índices mais preocupantes de saúde emocional. Veja abaixo:
- Sentem preocupação com coisas do cotidiano: 61% das meninas contra 38,8% dos meninos
- Acham que a vida não vale a pena ser vivida: 25% contra 12%
- Têm vontade de se machucar: 43% contra 20%
- Estão insatisfeitos com o corpo: 36% contra 18%
- Se sentem abandonadas: 33% contra 19%
- Alguma vez alguém tocou, beijou ou expôs partes do seu corpo contra sua vontade: 26,9% contra 10,9%
De acordo com a pesquisa, "o sentimento persistente de tristeza é um indicador clássico para a investigação de depressão" e "em crianças e adolescentes, sintomas de depressão também podem se manifestar com humor irritável". O relatório da Pense também aponta que "a preocupação excessiva referente a eventos cotidianos, mais frequentemente relacionados a família, saúde, finanças e escola ou trabalho faz parte da definição diagnóstica para a ansiedade".
"Toda essa análise aponta que o Brasil precisa investir na saúde mental dos adolescentes, em especial, na saúde das meninas; a criação de políticas públicas que contemplem essas diferenças entre os sexos é importante e urgente para que as mulheres do país possam manter seu bem-estar e sua capacidade inegável de contribuição para a economia, para a sociedade e para o Estado brasileiro", diz o texto.
Melhora em cinco anos
A Pense também produz um indicador geral sobre a saúde mental dos alunos. Ele considera as respostas "sempre" e "na maioria das vezes" para as perguntas que investigavam sentimentos como ansiedade, tristeza e mudanças de humor. Em 2024, 22,9% das alunas apresentaram autoavaliação em saúde mental negativa. Entre os meninos, isso foi de 6,8%.
Em 2019, primeiro ano antes da pandemia, o cenário era ainda pior. Naquele momento, 27% das meninas apresentaram autoavaliação em saúde mental negativa. Isso foi 8% entre os alunos. De acordo com o texto, chama a atenção que quatro dos seis critérios que formam esse indicador era pior cinco anos antes.
"A expectativa de que após a pandemia os jovens estariam mais ansiosos, mais deprimidos e com sentimento de que a vida não valeria a pena ser vivida não se mostrou corroborada pelos resultados de 2024", diz o texto.
Violência sexual
Os dados mostram que as meninas também relataram o dobro de casos de assédio sexual do que seus colegas. Em 2024, 26% delas relataram que alguma vez alguém tocou, beijou ou expôs partes do seu corpo contra sua vontade. Já entre os meninos, o percentual foi de 10,9%.
Nesses casos, os principais agressores apontados foram outra pessoa (24,6%), familiares (24,4%) e pessoa desconhecida (24,0%). As categorias de namorado(a) e amigo(a) foram mencionadas por 21,2% e 20,4% dos estudantes, cujos percentuais caíram em relação 2019. Naquele momento, foram 29,1% e 24,8%, respectivamente. Já entre os casos de estupro, o principal agressor foi outro membro da família (26,6%), seguido de pessoa desconhecida (23,2%) e namorado (22,6%).
DigoresteNews/OGlobo


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