Caso Master e Lulinha levam PT e Centrão atuarem duro para sepultar CPI do INSS
Sem ambiente político para convencer a cúpula do Legislativo, a comissão recorreu ao STF na tentativa de garantir sobrevida
Quinta-feira, 19 de março de 2026
O avanço das investigações sobre a relação de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, com um dos pivôs do escândalo de desvios de aposentadorias e das apurações sobre o Banco Master aproximou PT e Centrão na tentativa de barrar a prorrogação dos trabalhos da CPI do INSS.
Em lados opostos na maior parte das disputas recentes, governistas e dirigentes de partidos do bloco passaram a atuar contra o prolongamento das apurações feitas pelo colegiado, cujo prazo termina na próxima semana. Sem ambiente político para convencer a cúpula do Legislativo, a CPI recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) na tentativa de garantir sobrevida.
A avaliação, hoje, é que o caso deixou de representar apenas um problema para o governo e passou a atingir também lideranças e quadros relevantes do centro e da direita, após a divulgação de mensagens e registros que expuseram a rede de relações do banqueiro Daniel Vorcaro com personagens de peso da política nacional.
O efeito foi aproximar interesses que, até aqui, corriam separados: de um lado, o Planalto tenta conter o desgaste provocado pelo episódio envolvendo Lulinha; de outro, partidos do Centrão buscam evitar que a comissão continue revelando conexões incômodas em pleno ano eleitoral.
Pressão sobre aliados
Como mostrou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, líderes do PT e do Centrão entraram em campo nos últimos dias para convencer deputados e senadores a retirarem suas assinaturas do pedido de prorrogação. O requerimento, apresentado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), reúne 175 deputados e 29 senadores, número suficiente para sustentar a continuidade do colegiado. O documento, porém, está parado há meses, e Alcolumbre resiste a dar seguimento à tramitação.
Até o momento, não houve retirada efetiva de assinaturas e a estratégia tem avançado em outras frentes. Parte do Centrão defende deixar a oposição isolada nas cobranças a Alcolumbre, atitude que enfraqueceria o movimento por si só.
Essa estratégia também leva em conta o entendimento do presidente do Senado de que não há precedente que obrigue o chefe do Legislativo a prorrogar os trabalhos de uma CPI.
O apoio à prorrogação é concentrado sobretudo em parlamentares do PL, do Novo e de parte da direita no Congresso. O PT, por sua vez, não assinou o pedido e, segundo relatos, atua em sintonia com Davi Alcolumbre, estimulando que o requerimento permaneça sem andamento.
A leitura entre governistas é que a CPI passou a gerar desgaste direto ao Palácio do Planalto após se aproximar do entorno do presidente Lula.
Publicamente, governistas dizem que não conseguem avançar na investigação sobre tentáculos do Master à direita, como o relacionamento do cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel. Também citam as decisões recorrentes do STF que desobrigam convocados a depor.
— Não tem que prorrogar. Não consegue mais ninguém para depor e presidente (da CPI) blindando o Master via Zettel, acusou o deputado Rogério Correia (PT-MG), um forte defensor de que a corrupção não seja mais investigada.
No Centrão, o movimento é influenciado pela divulgação de mensagens e registros que indicam a proximidade do banqueiro com lideranças políticas do grupo, como o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e o presidente do União Brasil, Antônio Rueda.
Interlocutores afirmam que há hoje um consenso interno de que é preciso “baixar a temperatura”. Nesse contexto, a continuidade da CPI interessa mais diretamente à oposição e aos próprios integrantes da comissão, enquanto cresce o temor de novos vazamentos que possam atingir o Congresso.
A federação União Brasil-PP, que reúne 44 deputados e cinco senadores entre os signatários do pedido de prorrogação, passou a ocupar posição central nessa equação. Integrantes admitem, reservadamente, que o avanço dessa linha de investigação aumentou o risco político e reforçou a necessidade de esvaziar a CPI.
Esse receio se intensificou após a circulação de informações sigilosas recebidas pela CPI. O vazamento de dados sensíveis deteriorou o ambiente político e passou a ser citado por lideranças como um dos principais fatores contra a prorrogação.
Em outros partidos do Centrão, como PSD e Republicanos, o clima é de menor tensão. O senador Cleitinho (Republicanos-MG) afirmou que não houve orientação formal da legenda, embora defenda a prorrogação:
— Não tivemos nenhuma orientação sobre assinar ou não. Eu acho que tem que prorrogar, sim, mas não vejo um consenso no partido.
Cúpula desinteressada
A resistência também se apoia na avaliação de que a comissão já produziu seus principais efeitos políticos. Na cúpula do Congresso, cresce o entendimento de que os nomes que devem ser atingidos pelo relatório final já são conhecidos e que uma extensão dos trabalhos teria pouco impacto prático. Em contrapartida, manter a CPI ativa por mais alguns meses significaria prolongar o desgaste em pleno calendário eleitoral de 2026.
A decisão da CPI de recorrer ao STF agravou ainda mais o cenário. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), ingressou com um mandado de segurança ao lado do relator Alfredo Gaspar (União-AL) e do deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), pedindo que o ministro André Mendonça determine a prorrogação.
No recurso, os parlamentares alegam “ato omissivo” da Mesa Diretora e de Alcolumbre, sob o argumento de que o requerimento protocolado em dezembro não foi sequer lido em plenário.
A iniciativa foi recebida com irritação pela cúpula do Congresso, que vê na judicialização uma tentativa de contornar a condução interna do Legislativo. O gesto ampliou o desgaste político em torno da CPI.

Nenhum comentário