Seis vereadores repassaram R$ 5,5 milhões a instituto suspeito de esquema


 Quarta-feira, 20 de janeiro de 2026 

Investigações da Polícia Civil no âmbito da Operação Gorjeta, deflagrada na última terça-feira (27), indicam que seis vereadores de Cuiabá destinaram cerca de R$ 5,5 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Brasil Central (Ibrace), entidade suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro e associação criminosa. Os recursos teriam como origem emendas impositivas encaminhadas ao instituto para a realização de eventos esportivos.

Os parlamentares citados nas investigações são: 

  1. Dídimo Vovô (PSB)
  2. Lilo Pinheiro (PP)  
  3. Chico 2000 (PL)
  4. Luiz Fernando (Republicanos) 
  5. Kássio Coelho (Podemos) 
  6. Wilson Kero Kero (PMB)

A operação apura o desvio de recursos públicos e a prática dos crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro, tendo como principais vítimas o Município de Cuiabá, especialmente a Câmara Municipal e a Secretaria Municipal de Esportes.

Alvo central da operação, o Instituto Brasil Central (Ibrace) é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2021, com sede em Cuiabá, que passou a receber emendas parlamentares para a promoção de corridas de rua e outros eventos esportivos. Conforme documentos da investigação, o instituto recebeu R$ 5.489.787,00 provenientes de emendas destinadas por seis vereadores.

Desse total, R$ 350 mil foram indicados pelo vereador Luiz Fernando; R$ 400 mil por Kássio Coelho; R$ 317.213,00 em repasses atribuídos aos vereadores Wilson Kero Kero e Lilo Pinheiro; R$ 307 mil exclusivamente por Kero Kero; além de R$ 365.574,00, cujo autor do repasse não foi identificado. O vereador Chico 2000, apontado como principal alvo da operação, aparece como o maior responsável pelos repasses, com R$ 3,5 milhões destinados individualmente ao instituto. Em conjunto com o vereador Dídimo Vovô, os valores somam ainda R$ 200 mil.

Três anos de repasses

Segundo a Polícia Civil, Chico 2000 foi responsável por aproximadamente 66% do total recebido pelo Ibrace, no período compreendido entre 22 de novembro de 2022 e 9 de abril de 2025. Entre os repasses que mais chamaram a atenção dos investigadores está a transferência de R$ 600 mil, realizada em 4 de abril de 2025, para a organização da 36ª Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Cinco dias depois, em 9 de abril de 2025, o vereador destinou mais R$ 400 mil ao instituto, também por emenda impositiva, para a realização da 6ª Corrida do Legislativo.

Nas redes sociais, o Ibrace afirma que tem como objetivo promover cidadania, inclusão social e fortalecimento comunitário por meio de ações sociais, esportivas, culturais e educacionais, além da defesa de direitos sociais. A estrutura administrativa do instituto é composta pelo presidente Alex Jony Silva, também alvo da operação, pelo secretário Valdomiro Everson Rigolin e pelo tesoureiro Joaci Conceição Silva. O conselho fiscal é formado por Osvaldo de Souza Brito, Suzana Parreira Oliveira e Eleuza Maria da Silva.

Apesar de não constar formalmente no quadro de associados, os investigadores destacaram a atuação do empresário João Nery Chiroli, outro alvo da operação. Segundo a Polícia Civil, ele representava informalmente o Ibrace e organizava os eventos esportivos, por meio da empresa Chiroli Esportes.

“O vereador Chico 2000 destinou elevados valores, por meio de emendas impositivas, para o instituto Ibrace realizar eventos (corridas) em Cuiabá. No entanto, do conteúdo extraído, verifica-se que o organizador de fato dos eventos era a empresa Chiroli Esportes, por meio de seu proprietário João Nery Chiroli, que informalmente representava o instituto Ibrace”, diz trecho do relatório policial.

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores ocorreu em 9 de abril de 2025, mesma data do repasse de R$ 400 mil feito por Chico 2000 ao instituto. Nesse dia, João Nery Chiroli realizou uma transferência via PIX de R$ 20 mil à construtora responsável por uma obra vinculada ao vereador, localizada em Chapada dos Guimarães.

“Cientes dessas datas de pagamento e das conversas entre ‘Chiroli’ e ‘Chico 2000’, causou estranheza o fato de Chiroli, por meio da empresa Chiroli Esportes, ser o organizador dos eventos e, ao mesmo tempo, atuar em procedimentos de interesse do Ibrace, mesmo sem integrar formalmente os quadros da associação”, aponta outro trecho do documento da investigação.



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