Namorada do empresário que vendeu mansão a Flávio Bolsonaro é juíza e auxiliou ministro do STJ favorecer Flávio

João Otávio Noronha, que presidiu a Corte entre 2018 e 2020, proferiu votos favoráveis ao senador em investigação sobre as 'rachadinhas'


  Quinta-feira, 04 de março de 2021  

O empresário Juscelino Sarkis, que vendeu ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), em janeiro, a mansão de R$ 6 milhões no Lago Sul, em Brasília, é namorado da juíza Cláudia Silvia de Andrade, da Justiça de Goiás, que trabalhou no gabinete do ministro João Otávio de Noronha enquanto ele esteve na presidência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), entre 2018 e 2019. A informação foi revelada pelo “Jornal Nacional”, da TV Globo, nesta quarta-feira. Na semana passada, Noronha proferiu votos favoráveis ao filho do presidente Jair Bolsonaro em dois recursos apresentados por advogados à Quinta Turma do STJ. A defesa tenta atrasar e anular o caso das “rachadinhas”.

De acordo com o “JN”, Cláudia integrou uma equipe de seis auxiliares do gabinete de Noronha enquanto ele presidiu a Corte. Ela e Juscelino Sarkis têm um relacionamento, registrado em fotos dos dois juntos, compartilhadas nas redes sociais. Sarkis era o proprietário do imóvel de 2,4 mil metros quadrados que Flávio adquiriu no início do ano, no chamado “Setor de Mansões Dom Bosco”, uma das áreas mais nobres da capital federal.

Flávio foi denunciado em outubro do ano passado pelo Ministério Público (MP) do Rio, junto a outras 16 pessoas, por um esquema de desvio de salários de ex-funcionários de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Entre as suspeitas, promotores sustentam que o político utilizou dinheiro ilícito em transações imobiliárias — a mansão é o 21º imóvel negociado em 16 anos.

Em julgamento na terça-feira passada, 23, os cinco membros da Quinta Turma do STJ julgaram um pedido de habeas corpus da defesa do parlamentar para anular a quebra de sigilo fiscal e bancário dele e de mais cem pessoas e empresas suspeitas de ligação com o caso das “rachadinhas”. João Otávio Noronha abriu voto divergente do relator da ação, o ministro Félix Fischer, e se posicionou favoravelmente ao pedido dos advogados de Flávio.

Seguido por outros três ministros do colegiado, o voto de Noronha prevaleceu e duas decisões do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, proferidas em abril e junho de 2019, foram anuladas por falta de fundamentação. Sem a quebra de sigilo, as investigações do MP podem demorar ainda mais a serem concluídas e até voltar à estaca zero.

Na mesma sessão da Quinta Turma, Noronha também concordou com outro pedido da defesa de Flávio, cujo julgamento ainda não foi finalizado. O magistrado vê irregularidades no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que embasa a apuração da promotoria fluminense e acredita que o documento precisaria ser anulado.

Em agosto do ano passado, Noronha concedeu prisão domiciliar a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, e à mulher de Queiroz, Márcia de Oliveira Aguiar. Em junho, os dois haviam sido alvos de ordens de prisão presos, em regime fechado, sob suspeita de tentar obstruir as investigações.

Procurado pelo “JN”, João Otávio Noronha afirmou que desconhece a negociação do imóvel em Brasília e afirmou que a juíza Cláudia Silvia de Andrade não trabalhou em casos relativos a Flávio Bolsonaro. O empresario Juscelino Sarkis disse que a venda da mansão foi feita através de corretores, sem que ele próprio conhecesse previamente o comprador. O empresário tambem informou que a namorada não esteve envolvida na transação imobiliária.



Digoreste News, com O Globo


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