Para pagar dívidas do pai que morreu vítima de covid-19, estudante da UFMT vende cachaça de banana

"Meus pais sempre foram pessoas muito guerreiros. Nunca desistiram. Não deixaram me faltar nada".


 Quarta-feira, 23 de dezembro de 2020 

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Letícia Mayara Vieira Maciel Barbosa, de 22 anos, começou a vender cachaças de banana, abacaxi e canela para poder pagar as dívidas deixadas pelo pai, Adilson Benedito Barbosa, que morreu vítima de covid-19 em setembro. As dívidas a serem pagas vão desde os custos do enterro de Adilson, como pessoas que ele devia e um empréstimo feito em um banco para comprar um caminhão.

“Esse processo do covid foi muito doloroso para mim porque a gente é educado para amar e tratar pai e mãe como se fossem eternos. Eles não são. Eu vivi 22 anos ao redor do meu pai. Eu e ele sempre tivemos uma ligação absurda. Muito mais que a ligação afetiva que tenho com a minha mãe. Eu sempre estive ao lado dele e ele ao meu lado. Sempre me apoiou em absolutamente tudo. Então, a partir do momento que ele falece nasce um desespero e a gente pensa ‘meu deus, eu não sei viver sem essa pessoa’”, revela.

Sua mãe, Márcia Vieira Maciel Barbosa, foi a primeira a ser infectada pelo novo coronavírus no trabalho, onde várias pessoas contraíram a doença e muitos, inclusive, acabaram morrendo. Isolada em casa, ela não chegou a sentir falta de ar, mas teve falta de apetite, diarréia e cansaço. O mesmo aconteceu com Adilson, que foi infectado pela esposa, mas o seu caso se agravou com o passar do tempo, enquanto Márcia mostrou melhora logo na segunda semana.

“Quando ele sentava para comer, já vinha uma ânsia de vômito. Não conseguia ingerir nada. Quando ingeria, o organismo não absorvia. Ele teve um quadro de diarreia muito forte. Tudo o que ele ingeria, o organismo nem tinha tempo de absorver e já evacuava. Isso foi deixando ele debilitado, perdeu muito peso e não tinha forças nem para fazer a própria barba”.

Talvez tentando mostrar-se forte para a família, sempre que questionado ele dizia que não queria ir ao médico, mas no início de setembro a situação se agravou ao ponto de ser necessário procurar uma unidade de saúde. A médica que atendeu Adilson e Márcia tranquilizou os dois, dizendo que tudo ficaria bem porque ele estava andando e conversando. Ele morreu no mesmo dia, ao final da tarde.

“Chegaram os resultados dos exames e apontaram que 75% dos pulmões dele já tinham sido comprometidos. A médica pediu para minha mãe ir para casa, voltar no horário de visita, às 18h, com roupas e para ter mais notícias. Quando minha mãe voltou, às 18h, ele já havia falecido. Foi uma coisa muito repentina para nós. Minha mãe deixa ele no hospital andando e conversando, para de repente ele ter uma piora muito drástica e o coração dele não conseguir reagir”, conta.

Letícia é natural de Santa Bárbara d'Oeste (São Paulo) e em 2016 mudou-se para Cuiabá porque passou no curso de Ciências Sociais na UFMT, então ela acompanhou, inicialmente, tudo de longe. Ela não conseguiu chegar a tempo para o enterro e não conseguiu se despedir, assim como sua mãe, que foi impedida de ver o corpo do marido por já estar isolado. Foi tudo repentino. Não houve qualquer momento para se preparar. 

Adilson sempre foi autônomo. Já foi pintor, eletricista, caminhoneiro e motorista de aplicativo. Com a pandemia do novo coronavírus, ele precisou parar de trabalhar enquanto motorista e os serviços como caminhoneiro estavam escassos. A família já não passava por um bom momento financeiramente antes de seu falecimento, mas é quando ele morre que tudo se agrava devido ao acúmulo de dívidas.

“Infelizmente, as pessoas não sabem respeitar o processo de luto dos outros. Haviam algumas pessoas que ele devia, informalmente, dívida de boca, que vieram cobrar. Há uma dívida altíssima em um banco, decorrente de um caminhão que ele comprou e não conseguiu trabalhar porque quebrou. Um processo totalmente problemático”.

A família precisa do equivalente a R$ 10 mil. A quantia, entrentanto, não chega próximo ao valor total que Letícia e sua mãe precisam pagar. O valor de R$ 10 mil é de mais urgência, para conseguir minimamente quitar as dívidas acumuladas.

Inicialmente, a venda das cachaças, que são de Goiás, fornecidas por uma colaborador de Cuiabá, foi pensada para sua cidade natal para poder arcar com os custos da viagem que fará no dia 31 de dezembro para auxiliar sua mãe na resolução dos problemas pendentes. Entretanto, por não poder levar uma alta quantidade de bebida alcoólica no avião, ela optou por vender em Cuiabá mesmo e tem feito campanhas nas redes sociais para isso.

“A cachaça está disponível em três sabores: banana, abacaxi e canela. A garrafa é super fofa, de 900 ml. A cachaça é leve, tem apenas 16% do teor alcoólico e é um produto mais para degustação. Como é final de ano, 2020 foi um ano tão pesado que talvez as pessoas queiram tomar um bom vinho, champanhe ou cachaça doce, então me veio a ideia de vendê-las”, explica.

O produto foi descoberto há cerca de dois anos, quando ela estava na Praça da Mandioca a passeio. As cachaças são vendidas por R$ 65 cada ou por R$ 180 o combo com as três. Para adquirir, basta entrar em contato com (65) 98432-3866.

“Meu intuito é ajudar minha mãe. Meus pais sempre foram pessoas muito guerreiros. Nunca desistiram. Não deixaram me faltar nada. Eles sempre fizeram tudo por mim. Minha mãe trabalhou a vida inteira e meu pai também. Visualmente, ela está abatida e cansada. Covid deixa sequelas. O intuito é dar uma esperança para ela quitar as dívidas e ter uma boa noite de sono porque isso afeta toda a nossa tragetória”, finaliza.



Digoreste News, com Olhar Conceito

Nenhum comentário